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24 de Outubro de 2020

Entendendo sobre o fenômeno das Fake News

via: https://trilhacriminal.wordpress.com/2019/12/06/entendendo-sobre-o-fenomeno-das-fake-news/

Danielly Pereira, Advogado
Publicado por Danielly Pereira
há 5 meses



Neste artigo, promove-se uma breve análise sobre o fenômeno das Fake News. Na elaboração do texto, houve a preocupação na apresentação de conceitos, principais características e consequências. A fonte da pesquisa se deu exclusivamente pelas aulas ministradas pelos professores Eliane Brum[2] e José Carlos Moreira da Silva[3] sobre ‘Fake News, Democracia e Violência’ no curso de pós-graduação Latu Sensu em Direito Penal e Criminologia da PUC-RS.

Apesar do termo ‘notícias falsas’ ser antigo, trata-se de um fenômeno das comunicações contemporâneas, sendo, inclusive, popularizada pelo termo inglês “Fake News”. Sua popularização se deu com a corrida presidencial dos Estados Unidos em 2016, época em que conteúdos falsos sobre a candidata Hillary Clinton foram compartilhados de forma intensa pelos eleitores de Donald Trump. O termo foi inclusive considerado pelos dicionários britânicos Oxford e Collins a palavra do ano de 2017.

Para o dicionário Collins, significa “informações falsas, muitas vezes sensacionalistas, divulgadas sob o pretexto de reportagens noticiosas”. Para o Cambridge, são histórias falsas que parece ser notícias, transmitidas na internet ou usando outros meios de comunicação, geralmente criadas para influenciar opiniões políticas ou como uma piada.

Resultado de imagem para Internet Research Agency

As Fake News começaram com a Internet Research Agency (empresa russa sediada em São Petersburgo), considerada a fábrica de trolls, fundada em 2003. Seu modus operandi se detém de utilizar os recursos das mídias sociais para impor a notícia falsa como “fato social” dentro do grupo de referência, a ponto de influenciar fortemente o seu compartilhamento espontâneo e participativo, e que se dá com velocidade e co-envolvimento sem precedentes na história da desinformação.

O que diferencia as Fake News da desinformação do passado, é a capacidade de tocar profundamente a emotividade do leitor e de ser criada e difundida por meio das mídias sociais.

Um estudo publicado pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) na Revista Science em 2018, tomando como objeto da pesquisa o Twitter, demonstrou que, as notícias falsas possuem 70% a mais de chances de serem compartilhadas do que as verdadeiras. Cada postagem verdadeira atinge em média, mil pessoas, enquanto as postagens falsas mais populares – aquelas que estão entre o 1% mais replicado – atingem de mil a 100 mil pessoas. Isso justifica sua rápida disseminação, pois tem impacto direto nas políticas públicas.

Dentro da perspectiva de que notícia ruim se espalha mais rápido, é interessante lembrar do experimento realizado por Solomon Asch em 1956, em que pôde verificar de forma significativa o poder de conformidade dos indivíduos quando estão em grupos, destacando fatores centrais, como por exemplo, a inexistência de questionamento ou conflito quando estes estão inseridos dentro de um grupo.

De acordo com o experimento, os voluntários quando estavam sozinhos erraram menos de 1% das perguntas, mas quando reunidos, 75% escolheram a alternativa errada pelo menos uma vez. Isso ocorre (u) por dois motivos: a) conformidade informacional: o sujeito acompanha o grupo porque se convence da opinião sustentada. Em geral decide mais por confiança no grupo do que pela sua própria reflexão; b) conformidade normativa: o sujeito acompanha o grupo para não se sentir destoante ou estigmatizado. Tem sua opinião, fruto de reflexão própria, mas dela abre mão por pressão do grupo.

Dessa forma, é possível se questionar sobre as diversas consequências que um conteúdo falso, não lido e não interpretado, tomado de recursos de persuasão capaz de baixar a resistência da pessoa a ser convencida, com base em um fato social e com título capaz tocar profundamente a emotividade do leitor é capaz de produzir.

Para exemplificar, uma Fake News que gerou grande proporção nas redes sociais, resultou em uma violenta morte em Guarujá, São Paulo no ano de 2014. Uma mulher foi espancada por causa de boatos em rede social que afirmavam que ela sequestrava crianças para utiliza-las em rituais de magia negra. A mera publicação de um retrato falado semelhante a vítima, sem qualquer investigação policial, ensejou a morte violenta da mulher de 33 anos[4].

Uma fake news eficiente transforma a notícia em fato social, ou seja, toda forma de sentir, pensar, agir, os valores morais, sociais, tudo que é exterior ao indivíduo, com apoio do maior número de indivíduos possível e consequentemente com uma menor chance de ser confrontada.

Uma das formas para que essa disseminação de notícias falsas ocorra, se dá pelas tropas cibernéticas (cyber trupe), formadas por “troll”, que é o usuário agressivo (em geral com perfil falso) que intervém na rede social com comentários provocativos, radicais e exaltados buscando gerar divisão e conflito, e o “bot” (robô), um programa que executa tarefas automáticas na internet simulando o comportamento de um usuário humano.

A rede social digital é hoje o meio mais veloz de mobilidade social. Ela pode transformar o status de alguém independente de critérios institucionais e/ou de competência. Essa rápida e alta disseminação de notícias falsas pode decorrer da busca por popularidade, formando as bolhas sociais; da baixa atenção nas redes sociais ­− compartilhamento antes de ler o conteúdo; pela dependência comportamental; pelo tempo de conexão na internet por dia; e por último, mas não menos importante, pelo Feedback Loop/Viciados em Dopamina.

Nas mídias sociais a seleção de notícias exibidas não é plenamente controlada pelos usuários. Tendem a aparecer as notícias mais populares, não as de maior qualidade. Os mecanismos de inteligência artificial que impulsionam as notícias seguem as visões dos usuários, são coerentes com seus gostos. No interior de uma comunidade virtual, os conteúdos que desafiam a plataforma comum costumam ser expurgados, prejudicando a formação do espírito crítico. Esse ambiente favorece a propagação de fake news. Tentar desmascarar uma fake news no interior de uma bolha que a adota como verdade pode ser contraproducente. O enfraquecimento das comunidades offlines também dificulta fazer frente às fake news consideradas verdadeiras nas mídias sociais.

Existem três tipos de atenção nas redes sociais: constante, seletiva, dividida. Com o impacto das novas TI as novas gerações têm diminuído a atenção constante e aumentado a atenção dividida (multitasking). Isto tem diminuído a atenção seletiva. (Pesquisa da Microsoft realizada no Canadá).

Ainda neste prisma, o fenômeno da baixa atenção nas redes sociais aumenta a possibilidade de que as fake news sejam espalhadas rapidamente. O tempo de atenção que se costuma empregar na leitura de um conteúdo digital é insuficiente para que se possa distinguir uma fake news de uma verdadeira.

Além do mais, no ambiente online, mesmo quando os links são clicados, poucos leitores vão passar dos primeiros parágrafos, o que facilita ainda mais o trabalho de elaboração de uma notícia falsa. Estudo do Nielsen Norman Group divulgado em 2013 mostrou que 81% dos leitores voltam os olhos – o que não significa necessariamente que estão, de fato, a ler – para o primeiro parágrafo de um texto na internet, enquanto 71% chegam ao segundo. São 63% os que olham para o terceiro parágrafo, e apenas 32% voltam os olhos para o quarto. (Nielsen, 2013).

Com pouco tempo disposto para ler, a tendência é seguir o que está aceito na bolha como verdade. Qualquer mudança de posição tende muito mais à radicalização do que já está aceito do que à sua crítica.

A dependência comportamental das redes sociais tem aumento cada vez mais. Elas são utilizadas por mais de 3 bilhões de pessoas (42% da população mundial), segundo dados do Relatório Digital de 2018.

Já o Feedback, positivo, irresistível e inesperado, libera dopamina (hormônio neurotransmissor que traz a sensação de bem-estar, a mesma sensação que é liberada em atividades físicas e ato sexual). Mas para gerar o mesmo prazer será preciso doses cada vez maiores. Os aplicativos, para que se tornem habituais, trabalham em um ciclo de retroalimentação através de recompensas que aumentam o nível de dopamina durante a experiência tecnológica.

Imagem extraída da aula sobre ‘Fake News, Democracia e Violência’ da Pós-Graduação Latu Sensu do curso de Direito Penal e Criminologia da PUC-RS.

Imagem extraída da aula sobre ‘Fake News, Democracia e Violência’ da Pós-Graduação Latu Sensu do curso de Direito Penal e Criminologia da PUC-RS.

Para que exista o espírito crítico nas mídias sociais é preciso diversidade de ideias e capacidade para se distinguir o fato da invenção. Nesse sentido, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais nº 13.709/2018, o Regulamento Geral de Proteção de Dados da União Européia e a Tipificação da Denúncia Caluniosa com Finalidade Eleitoral são recentes legislações trabalhadas para lidarem com aqueles que criam Fake News. Deve também os trabalhos academicos, científicos e a doutrina acompanharem as discussões relativas ao tema.

Além das possibilidade jurídicas para lidar com as Fake News, no âmbito das mídias sociais existem também recursos em rede para usar, como os Fact Checks, que é uma área do jornalismo especializada em apurar veracidade de fatos, e diveros protocolos implementados pelas mídias para tentar reduzir o alcance e velocidade de propagação das Fake News. Exemplo é o whatsapp limitando o número máximo de compartilhamento de uma notícia em cinco, ainda que não seja uma solução definitiva, é algo que pode dificultar a rápida propagação de Fake News.

As Fake News são otimizadas, pois geram forte resposta emotiva no leitor para levá-lo à mobilização, em geral pela raiva e indignação; são personalizadas, consideram as características psicológicas e sociais do grupo; são automizadas, para figurarem entre as mais populares e serem divulgadas; são multimídias, articulam imagens, textos e vídeos para prenderem a atenção e serem mais difundidas; e são verossímeis, utilizam fatos verdadeiros para distorcêlos e mimetizam o estilo e a fonte da notícia verdadeira.

É de suma importância dispensar mais atenção ao tema e aprofundar a investigação sobre o combate às notícias falsas, pois não se resolvem com fórmulas simples e prontas, mas com um conjunto de mecanismos que vão desde recursos técnicos até o investimento em educação e literatura digital. As restrições legais devem ser elaboradas para combater a desinformação, mas sem perder de vista o desafio de respeitar a liberdade de expressão.

Bibliografia:

DELMAZO, Caroline, VALENTE, Jonas. Fake news nas redes sociais online: propagação e reações à desinformação em busca de cliques. Media & Jornalismo vol.18 no.32 Lisboa abr. 2018. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2183-54622018000100012 . Acesso em 06 dez. 2019.

DICIONARY, Collins. FAKE NEWS. Disponível em: https://www.collinsdictionary.com/pt/dictionary/english/fake-news . Acesso em 01 dez. 2019.

DICTIONARY, Cambridge. FAKE NEWS. Disponível em https://dictionary.cambridge.org/pt/dicionario/ingles/fake-news . Acesso em 01 dez. 2019.

DIZIKES, Peter. Study: On Twitter, false news travels faster than true stories. <http://news.mit.edu/2018/study-twitter-false-news-travels-faster-true-stories-0308 >. Acesso em 01 dez 2019.

MUNIZ, Carla. Dostoiévski: biografia e resumo das principais obras. Toda Matéria, 2019. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/dopamina/. Acesso em: 01 dez. 2019.

Nielsen, J. Website Reading: It (Sometimes) Does Happen. Nielsen Norman Group. Retrieved, 2013. Acesso em: 06 dez. 2019. Disponível em: < https://www.nngroup.com/articles/website-reading/ >.

Pós-Graduação Latu Sensu em Direito Pena e Criminologia da PUC-RS, professores Eliane Brum e José Carlos Moreira da Silva.

ROSSI, Mariane. Mulher espancada após boatos em rede social morre em Guarujá, SP. G1, Santos, 05 maio 2014. Disponível em: < http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2014/05/mulher-espancada-apos-boatos-em-rede-social-morre-em-guaruja-sp.html >. Acesso em: 01 dez. 2019.


[1] Pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia na PUC-RS; graduada em Direito pela Universidade FUMEC, BH; e-mail: [email protected].

[2] Eliane Brum é escritora, jornalista e documentarista. É autora de seis livros – cinco de não ficção e um romance – e diretora de quatro documentários. Trabalhou por 11 anos no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e por 10 anos da revista Época, em São Paulo, como repórter especial. Desde 2010 tornou-se freelancer, dedicando-se a livros de reportagem e documentários, como projetos de pesquisa na floresta amazônica e nas periferias da Grande São Paulo. É colunista do jornal espanhol El País, com uma coluna quinzenal no jornal impresso, em Madri, publicada em espanhol, e em coluna quinzenal no El País Brasil, em português, traduzida pera o espanhol. É colaboradora do jornal britânico The Guardian e de outros jornais europeus. Recebeu mais de 40 prêmios e reconhecimentos nacionais e internacionais pelo seu trabalho como repórter. É considerada a jornalista mais premiada da história do Brasil segundo pesquisa do portal Jornalistas & Cia.

[3] Possui graduação em Direito pela Universidade de Brasília (1993), mestrado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (1996) e doutorado em Direito pela Universidade Federal do Paraná (2002). Foi professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da UNISINOS (mestrado e doutorado), Avaliador do Ensino Superior MEC/INEP/OAB e Conselheiro e Vice-Presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Atualmente é professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da PUC-RS (mestrado e doutorado) e na Faculdade de Direito da PUC-RS. É também Bolsista Produtividade do CNPq. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Filosofia do Direito, Criminologia e Direitos Humanos, atuando principalmente nos seguintes temas: justiça de transição, crimes do Estado, hermenêutica filosófica e jurídica, pluralismo jurídico e ensino jurídico. Atualmente concentra suas pesquisas e suas demais atividades acadêmicas na temática da Justiça de Transição e dos Crimes do Estado.

[4] Notícia completa em: http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2014/05/mulher-espancada-apos-boatos-em-rede-social-morre-em-guaruja-sp.html.

3 Comentários

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Excelente artigo Dra. Danielly,
Parabéns pela abordagem!

Rogério Silva continuar lendo

Obrigada, Rogério!

Abraço! continuar lendo